À Glicia da Penha Leitão


E lá ia, bem cedo, seu pai pescador, num humilde barco, desbravar o mar. Enquanto isso, sua mãe, batalhadora, ficava em casa e lutava para conseguir mais um dinheiro para aumentar o orçamento da família, bem como a pequena filha que vendia uma saborosa cocadinha na porta do cinema. Mesmo com tanto esforço, não dava para realizar o seu maior sonho que era estudar. Porém, como sempre acreditara na provisão divina, dois padres jesuítas entraram em seu caminho para ajudá-la: padre Assis e padre Antônio. Assim, conseguira terminar o 1º e 2º graus em Iconha. Entretanto, para voltar do município vizinho, vinha de carona num caminhão de osso que a deixava toda ensanguentada. Então, era preciso se lavar antes de chegar em casa, pois a mãe levaria um susto se a visse naquele estado.


Seu começo foi muito árduo, mas nunca se rendera às dificuldades da vida, enfrentou-as e conseguiu tornar os estudos algo enraizado em seu ser. Dessa forma, estudou pedagogia, teologia, serviço social, fez cinco pós-graduações e psicanálise, com mestrado e agora está terminando o doutorado nessa área para que assim possa ajudar cada vez mais as crianças carentes e tantas outras pessoas com diversos tipos de problemas. Sem contar na sua ampla atuação profissional, pois foi diretora do hospital, coordenadora e supervisora do antigo Mobral. Contudo, foi durante os seus trinta e cinco anos na Educação que realizara grandes feitos: no município, foi a primeira diretora da pré-escola nomeada pela Secretaria Estadual de Educação e o seu nome está no Atlas Geográfico do Espírito Santo como a primeira na cidade a realizar uma quadrilha.


Mas, na lembrança, ainda permeiam as tantas emoções sentidas à frente do Jardim de Infância Municipal “Nossa Senhora da Conceição”. Como era bom conviver com alunos e professores. Ainda rememora os pomposos desfiles, cheios de alegorias purpurinadas que brilhavam tanto quanto os olhinhos das crianças que eram embaladas pela música da banda marcial e, agitadas, cantavam as mais diversas canções. E assim se fez uma família na escola. Todos eram unidos na alegria, mas também passavam juntos os momentos de tristeza como quando falecera uma querida professora e o luto tomou profundamente o seu coração. Ainda houve aquele momento de desespero em que seu pai ficara por dias perdido no mar, devido a uma forte tempestade. Sem esperança, olhava para o mar e já o via como o cemitério paterno. Porém, a tripulação voltou e, trêmulos, quase congelados, receberam um chocolate quente de sua família chamada escola.


Ah, mas era quando chegava a época de Natal que seu coração se alegrava. Seu pai pegava uma árvore e colocava perto de sua casa. A mãe armava um presépio, pegava plantas num bairro vizinho e enfeitava tudo. Também vinham da figura materna os doces que eram colocados, carinhosamente, dentro de sacolinhas que seriam penduradas naquela amistosa Árvore de Natal. À meia-noite, todos se reuniam para celebrar a festa natalina e, em seguida, as sacolas de doces eram distribuídas para as crianças que pulavam de alegria. Quão singelos e simbólicos foram os dias de antigamente! Tanto que até hoje permanecem na memória as serestas e o glamour dos salões que entoavam as marchinhas de Carnaval, ecoando um estridente “Ó abre alas!”. Então, deixe que a história passe e seja levada pelo vento para, feito poeira, alojar-se em cada coração.
(Fabiani Taylor)

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